sábado, 23 de setembro de 2023

TEXTO DE DOMINGO -N15

 


A COMPANHEIRA INVISÍVEL.


Você pode tocar para uma só pessoa, para uma platéia, ou sozinho, e ninguém vai “ver” a música. Eis a magia, eis o mistério… 


 Mesmo num show lotado, quem ouve e quem toca, o público e a banda, cada um ouve de uma forma única a mesma canção. A música tem esse poder de evocar sentimentos, de criar conexões e ao mesmo tempo ser solitária, ela caminha entre todos os ouvidos e conta uma história diferente para cada ouvinte.


A música guarda certa semelhança com a literatura, no sentido de dar margem para interpretações.


 São ótimas as companhias com as quais os assuntos nunca acabam, mas as melhores companhias são mesmo aquelas com as quais nos sentimos bem inclusive em silêncio, como acontece com as boas músicas.



 Entre linhas vem muita coisa boa por aí, se não der pra ver vai dar pra ouvir, vai ter até quem possa ouvir sem dar, palpites…

                                                                                                                             Rinaldo Conti


domingo, 17 de setembro de 2023

Texto de domingo -N14 - 17 09 23

 

  Janelas. 


 
 
 Uma brisa preguiçosa faz a nuvem baixa deslizar pela face leste da montanha. Tem razão a brisa e a nuvem ao andarem devagar, o domingo não é um dia para se ter pressa.

  A mesma brisa, quase fria entra pela janela do quarto trazendo o domingo pra dentro de casa. Ando lento até a cozinha para aquecer a água do chimarrão, e me pergunto: Quando foi que inventamos que a vida tem que ser apressada de segunda a sexta?





 Preparo o chimarrão, passo café e abro as janelas da sala, a brisa passeia dentro de casa mudando ares e temperatura, o sol se espreguiça atrás das montanhas do leste, e vai entrando em casa com ar dominical.

 Sou dado a mudanças, mas quando as coisas estão do meu jeito, tem rituais que aprecio muito repetir. Abrir de janelas e cumprimentar o sol com um café ou um chimarrão, no silêncio da manhã é um dos meus preferidos, não importa o dia. Mas é bem mais gostoso aos domingos.


 Finalmente abro a janela do escritório, e as brisas de dentro e de fora se encontram como as crianças da vizinhança. Uma bate as portas pra acordar os vizinhos e a outra faz voar todos os papéis que estvam organizados na mesa de trabalho. Em outros tempo eu ficaria incomodado, mas hoje acho graça... Saio catando os papéis e aproveito pra buscar uma caneca de café.

 Iluminação, ventilação e circulação são funcionalidades da arquitetura que fazem toda a diferença, mas ter amplitude visual sempre definiu os lugares que escolhi pra viver. E as janelas são a ponte entre a funcionalidade e a estética, são a conexão entre o lado de fora e o lado de dentro.

 Dizem que os olhos são as janelas da alma, concordo. E da mesma forma as janelas conduzem a alma através do que nos permitem olhar, sentir e apreciar do mundo lá fora.

 Bom domingo.

                                                 Rinaldo Conti:.








 

terça-feira, 12 de setembro de 2023

Silêncios - 12 09 23


 Silêncios - 12 09 23



Existem silêncios únicos, mas também existem vários silêncios.


Há um silêncio do lado de fora, há um silêncio do lado de dentro.


Tem um tipo de frequência uniforme e presente em tudo, algo que só se percebe quando nada faz barulho, e quando a gente finalmente experimenta o silêncio absoluto dentro e fora, o universo se expande, e passamos a ouvir de forma mais clara os pensamentos e sentimentos, diálogos em frequências diferentes; como ondas de rádio que transmitem mensagens invisíveis.


O silêncio pode ser assustador, mas é assustadoramente lindo, em um ambiente silencioso aguçamos os outros sentidos. Sentimos melhor as variações de temperatura, o toque do vento e os perfumes que vem de flores distantes, as cores, luzes e sombras ficam mais nítidas, os pés no chão e o toque das mãos, até os nossos sentimentos ganham outros contornos.


  Experimentar silêncios nos faz perceber melhor os ruídos, e a melodia que existe em tudo o que ouvimos. Verdades e mentiras vão ficando nítidas e o silêncio faz até uma função de filtro, altas, médias e baixas frequências, boas e más intenções, melodias e entonações, tudo fica mais nítido.


 É por isso que mesmo gostando de boas e longas conversas, e por mais que eu aprecie a companhia das pessoas que eu amo, com as quais convivo, cada vez mais eu preciso de de silêncios maiores, os mesmos que eu recomendo, do lado de fora, e do lado de dentro…


                                                                                                                             Conti:.


segunda-feira, 11 de setembro de 2023

TEXTO DE DOMINGO - N13 - 10 09 23


   CONEXÕES INVISÍVEIS.

 Eu não faço músicas, nem desenhos, muito menos poesias... 

 Essas entidades em forma de arte tem as suas próprias vidas. 


 O que acontece é que a gente se encontra, ou elas me visitam, 

vindas do invisível, e a parte que me cabe é traduzir o indizível 

de cada encontro. 


 Faço uma fotografia de cada momento, uma selfie da alma do lado de 

dentro. Começa como um esboço, a tela do artista e as tintas do

destino. Cada cor tem seu som, cada acorde uma vocação, e tudo vai 

se traduzindo, paisagens, palavras, imagens e melodias vão surgindo.


 Então não faço nada, nem músicas, nem poesias. Só observo, sem 

pressa, porque nunca se esgotam essas conversas, e o que parece que

aconteceu em um só dia, pode ser parte dos diálogos de toda uma vida.


  A beleza da arte é ser imprevisível. Inspiração, transpiração, 

conexão invisível.


                                                         Conti:.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

TEXTO DE DOMINGO - N12 - 07-09-23

 


Servos e senhores…


 Pode soar estranho que a mesma música que liberta também aprisiona, mas é uma questão de percepção, nem tudo se prende por correntes.

 

A escravidão acabou, ou acabamos de descobrir que ela só mudou de nome?

 

Não há servo sem senhor, sim senhor, senhoras e senhores. A relação de escravidão precisa de duas partes: Uma que é dona de tudo e todos, que manda, que impõe impostos, que cria leis; a outra parte é a que tem calos nas mãos, marcas de chicotes nas costas, e que só é livre para escolher a quem quer servir.


  Até Platão, que exaltava a música, expulsaria da cidade ideal os poetas. Logo, mesmo sendo livres para pensar, podemos acabar fatalmente presos a uma corrente de pensamento, ou expulsos de algum lugar por querer unir poesias e acordes. Acontece…


 Mas não é sobre filosofia e nem sobre política, é sobre música mesmo. A mesma que Platão se referia, que é a mesma que ouvimos no spotify. Será que ela nos prende ou nos liberta? Quem nunca se colocou na situação do personagem de uma canção?

Do lado de quem anda escrevendo textos e canções, às vezes cansa. Tem canções que apenas precisam ser libertadas do invisível que habitam e que precisam nascer e cuidar da sua própria vida no mundo. Tem outras canções que são planejadas como um filho, com aquela sensação de que podem tornar o mundo um lugar melhor, mas que para serem efetivamente livres não podem carregar essa expectativa; já basta os três minutos em que estarão presas.


 Nova reflexão: Aquilo que dizemos é eterno quando se repete? A canção dura mesmo três minutos ou dura por todos os três minutos que se repete quando alguém ouve a canção?


 Não vou recomendar reflexões, pelo menos por aqui a interpretação é livre, todos podem ser os servos ou senhores dos próprios pensamentos, pelo menos quando estão em silêncio..