Sempre achei curioso o estilo de vida dos ciganos, na minha infância, na região onde morava era comun ver os acampamentos que ficavam em algum lugar da estrada, nas entradas e saída das cidades.
Passados uns anos, eu já morava na capital e não raro via alguma cigana pelo centro da cidade, as vezes uma ou outra me abordavam querendo fazer uma leitura de mãos. Com o devido respeito, mas o que me chamava mesmo a atenção eram algumas moças bonitas que ficavam muito bem naqueles vestidos, uns coloridos e outros com decotes atrevidos, algumas com um olhar sedutor e enigmático. Nunca liguei, nem me interessei muito por estas artes adivinhatórias, sempre mantive o devido respeito, afinal é um sinal de boa educação não duvidadar daquilo o que não entendemos, principalmente daquilo que se esconde entre decotes e rendas...
Num belo dia, uma dessas mulheres me abordou de uma maneira inevitável, eu diria que até mesmo "infugível". E não era pra tentar me arrancar algum trocado, era mesmo, ou ficou sendo, como se tivesse algo realmente importante pra me contar. E não sei se foi pelo inusitado da situação, ou porque eu resolvi acreditar no que ouvia, mas quase tudo fez tanto sentido que passadas algumas décadas ainda trago muito daquela conversa comigo, outras coisas fui relacionando ou encontrando em livros, e em outros fatos parecidos. Algumas coisas, inclusive com certa frequência até compartilho, nas entrelinhas, como de costume.
Por ironia, quem sintetizou da melhor maneira tudo o que a cigana me disse foi um crente, gente finíssima, e com quem eu tive o prazer de trabalhar. Digo que foi ironia porque pra ele essas artes adivinhatórias eram uma prática condenável. Mas sem mencionar a fonte, eu simplesmente comentei as previsões, e o quanto eu achava aquilo incrível, até improvável. Mas a síntese daquele irmão de obras foi simplesmente objetiva e arrebatadora. Disse ele: " Aceita a profecia, porra! Se você tem aquilo o que quer é porque era pra ser teu, e se ainda não tem, é só fazer por merecer, pedir, receber e aceitar que é assim, Deus proverá."
Pois é, ele também falava uns palavrões, mas pra quem acredita que o criador escreva certo por linhas tortas, fica fácil pra aceitar que uma mensagem divina possa soar meio rude pra que seja ouvida por um abençoado e desatento ser humano. Esse foi um dos caras que eu conheci que mantinham a mais inabalável fé, e cujo ensinamento sobre "acreditar" também permanecem na minha bagagem.
Mais adiante na linha do tempo, fazia tempo que já não via nenhum cigano, nenhum amigo crente havia me profetizado mais nada. Mas a vida, as previsões e as profecias seguiam de vento em popa, e num ato contínuo daquele fluxo cósmico, eu havia passado um bom tempo fuçando aqui e ali em textos populares ou proibidos, coisas que passeavam entre a filosofia, o exoterismo, o esoterismo, o misticismo, e uns tantos tipos de fé. Sempre que encontrava alguma resposta, ou na medida que as coisas ia se materializando, eu simplesmente "aceitava a profecia".
Lá pelo início da faculdade, estudando a psicologia do consumidor, dei de cara com uma muralha chamada " A interpretação dos sonhos " do Freud. Li tudo, não entendi muita coisa, mas estabeleci uma relação com todos os assuntos pelos quais havia me interessado até então, e cheguei na conclusão de que dá pra analisar os sonhos dos outros de uma forma funcional e útil para algumas situações; mas é analisando os próprios sonhos que se pode navegar em mares desconhecidos e mergulhar em águas profundas!
E sem nenhuma pretensão, com o único objetivo de refletir, ou mesmo por diversão, volta e meia me pego avaliando algum sonho, em geral e com mais frequência avalio os meus. E foi o que nos trouxe até aqui!
Hoje acordei cedo, fiz meus rituais da manhã, e na hora de passar o café me dei conta de que havia sonhado justamente com o café. No sonho que foi muito simples eu simplesmente havia esquecido de colocar o filtro na cafeteira, e isso foi tudo. A análise, como de costume também foi automática " O FILTRO" era a peça principal, o alvo da análise, e a tese foi simplesmente: relacionar a fé de que aquilo faria sentido, com o café que neste caso representava o fluxo das coisas, e o sonho como mensagem a ser interpretada.
A síntese foi uma professia auto-realizável, mas que me agradou bastante: As vezes é preciso remover os filtros daquilo o que sentimos, do que queremos, do que fazemos, e simplesmente sentir, fazer e querer. Não julgar o meio, nem a mensagem e muito menos o mensageiro, e simplesmente receber.
Não sei se este texto vai servir como uma luva, ou um chapéu, se vai ser mero entretenimento ou levar o leitor a navegar em si mesmo ou mergulhar em pensamentos, mas posso dizer que tenho uma mensagem importante e forte como um café sem filtro pra deixar por aqui:
" Sonhe, tenha fé, beba um bom café e... ACEITE A PROFECIA, porra! "
Boa sexta feira.
Bagual Véio!
ps: Não faço consultas ( risos )