quinta-feira, 30 de julho de 2026

Conexión: Torres del Paine, Asunción

  


Sempre gostei do inverno, dos horizontes, do pôr do sol e de andar assobiando. 

 Quando criança, fazia trilhas perto de casa e me encantava com as linhas de energia desaparecendo no horizonte. Sabia que, além delas, havia outras cidades e imaginava que um dia chegaria até lá, e depois ainda mais longe.

 Hoje é 30 de julho. Em pleno inverno, faz 30 °C no centro de Asunción. O pôr do sol explode atrás dos prédios e das nuvens, na direção do Chaco. O Facebook me lembra que, há 14 anos, eu estava à beira de um lago gelado na Patagônia chilena, diante das Torres del Paine. Horizontes infinitos, sem torres de concreto, sem linhas de energia, apenas montanhas, vento e silêncio.

 Naquele tempo, tudo o que eu escrevia ficava no papel. O médio prazo era o fim do ano; o longo prazo tinha outro significado. Aventuras não eram um intervalo da vida. Eram a própria vida.

 Agora observo as torres de concreto que crescem no centro de Asunción. Meus objetivos parecem tão distantes quanto o próprio Chaco. Penso também nas torres e nas linhas de transmissão que partem de Itaipu e cruzam o Paraguay, levando energia por caminhos que quase nunca vemos.

 Tenho driblado a ansiedade entre contratos e aeroportos criando músicas instrumentais e eletrônicas para dar cor às ruas. Disso nasceu o projeto SCAPE, mais uma válvula de escape. Ainda assim, sinto falta das montanhas, dos desertos e dos campos vazios do sul. Às vezes parece que a paz dos lugares remotos cobra seu preço em distância, enquanto a vida nas metrópoles cobra em burocracia.

 O coração pergunta: "Por que bater longe do que faz sentido?" Não tenho resposta. Faço música como quem se desculpa. Escrevo como quem confessa.

 Olho para as torres de concreto e lembro das de granito. As lembranças de um passado feliz também me mostram que muitas das coisas boas que existem hoje não estavam nos planos daquele homem de 14 anos atrás.

 Talvez seja assim que a vida funcione. A gente segue imaginando o horizonte seguinte sem perceber que, no caminho, encontra paisagens com as quais sequer sonhamos.

 E, para quem aprendeu a gostar até do calor no inverno, talvez reste continuar assobiando rumo ao pôr do sol, esperando pelas próximas surpresas. No fim de um dia quente, ao final de uma semana em que tudo acabou se resolvendo, é hora de seguir para mais um horizonte.

Só não sei em que direção.



sexta-feira, 17 de julho de 2026

CONEXÃO


Conexão

Conexões se estabelecem, se mantêm e se perdem.

 Há muito tempo, em um voo do Uruguai para o Brasil, escrevi uma canção chamada Conexão. Um dia conto mais sobre ela por aqui. Mas a minha reflexão de hoje é sobre os tipos de conexões que criamos, mantemos e perdemos ao longo da vida.

 Tenho percebido o mundo cada vez mais ansioso e me vejo assim também. Parece que tudo é sempre "agora ou nunca", como se o próximo segundo fosse a última chance para qualquer coisa.

 Quando concluí a faculdade de Publicidade, fiquei ainda mais desconfiado do que já era. Desconfiado com cada frase, cada atitude, cada placa na esquina. Eu enxergava em tudo ( e ainda vejo )um argumento de venda tentando me convencer de alguma ideia, da vantagem de fazer alguma coisa, comprar alguma coisa, ou seguir determinado caminho.

 E tudo bem. A humanidade sempre funcionou mais ou menos assim. Comprar e vender nos trouxe coisas fantásticas: o poder de escolher entre produtos e serviços, a oportunidade de oferecer aquilo que sabemos fazer e, com isso, construir uma sociedade relativamente organizada. O problema nunca foi o comércio. O excesso de informação, somado às infinitas intenções por trás dela, é que se tornou um enorme desafio para manter conexões saudáveis. A vida imita a arte, e as vezes parece que tudo vira uma cena e todo mundo um personagem.

 E faz tempo que essa lógica parece ter saído do controle, num lance de: " personagens demais, e pessoas de menos ".

 Às vezes tenho até a impressão de que já não existe amizade, relacionamento ou qualquer tipo de conexão sem alguma proposta comercial embutida, escondida nas entrelinhas. Seja por conveniência, status, validação ou qualquer outro indicador mensurável. É como ser medido pela capacidade de entregar e solucionar, e acabar se sentindo obsoleto quando já ofereceu tudo o que tinha.

 E, de novo, tá tudo bem.O mundo seguirá sendo como deve ser.

 Mas para quem já enxergou esse mecanismo funcionando, fica difícil "desver". E isso cansa... Esse ciclo de ser útil o tempo inteiro.

 Isso me faz lembrar de quando deitava na grama pra olhar as estrelas com algum amigo, e sem intenção ou interesse em nada, aquele momento era simplesmente incrível sobretudo quando passava uma estrela cadente, totalmente inútil para qualquer outra coisa que não fosse viver o presente.

 Entre inúmeras teorias que desenvolvi ao longo dos anos, e que talvez eu organize em algum livro um dia, existe uma que gosto especialmente. Ela fala sobre interesses legítimos. A ideia é simples: todo relacionamento acontece por interesse. Ponto final.

 Um homem e uma mulher podem ter interesse na companhia, no afeto ou na construção de uma vida juntos. Uma planta tem interesse no solo onde germina. Um animal aceita ser domesticado porque existe algum tipo de benefício nessa relação.

 O interesse, por si só, não é o problema. A questão é descobrir se ele é legítimo.

 No primeiro exemplo, se um casal se conecta pelo afeto, e esse interesse é verdadeiro, existem grandes chances de viverem uma relação feliz , quem sabe por toda a vida.

 Mas quando o afeto é apenas um argumento para esconder outros interesses, segurança emocional, financeira, espiritual ou qualquer outro tipo de conveniência,  a conexão nasce frágil. É como uma semente tentando germinar sobre uma pedra. Claro, talvez exista uma pedra interessada em sustentar uma semente, e uma semente interessada em crescer justamente ali. Nesse caso improvável, quem sabe elas sejam felizes para sempre.

 Mas, na maioria das vezes, interesses diferentes não sustentam conexões por muito tempo. E assim seguimos, na busca por conexões legítimas. Primeiro, consigo mesmo, depois, com quem cruza o nosso caminho.

 Conexões mais leves. Mais honestas. Mais livres da necessidade de parecer alguma coisa. Mesmo que durem pouco.

 Porque talvez a beleza das conexões nunca tenha estado no tempo que permanecem, mas na verdade com que acontecem enquanto existem.

domingo, 12 de julho de 2026

A GUERRA DOS CLONES


 

A Guerra dos Clones

Nunca fui um grande fã de Star Wars. Na verdade, a primeira vez que ouvi falar em clones foi quando anunciaram o nascimento da ovelha Dolly. Na época parecia ficção científica. Hoje, de certa forma, ela virou rotina.

Sou de uma geração que viu a televisão deixar de ser preto e branco, acompanhou a chegada dos computadores pessoais, dos celulares, da internet, dos smartphones e, agora, da inteligência artificial. Em poucas décadas, vivemos uma revolução tecnológica que transformou completamente a maneira como trabalhamos, aprendemos e criamos.

O curioso é que, quanto mais a tecnologia aumenta nossa capacidade de produzir, mais ela amplia aquilo que somos capazes de imaginar. Os objetivos ficam maiores, os projetos mais ambiciosos e o tempo continua sendo exatamente o mesmo: vinte e quatro horas por dia.

É aí que entram os meus clones.

Não clones de laboratório, nem soldados de ficção. Clones digitais. Agentes de inteligência artificial treinados para executar tarefas específicas, aprender processos e multiplicar minha capacidade de produzir. Se antes meus grandes aliados eram um computador, o Excel ou um smartphone, hoje já não consigo imaginar determinados projetos sem a ajuda desses novos parceiros.

Recentemente lancei minha terceira música "analógica", fruto de um processo que levou anos entre composição, registros, produção, gravação e lançamento. Foi uma experiência importante, mas também me mostrou o quanto o modelo tradicional exige tempo, dinheiro e uma grande estrutura.

Então decidi recomeçar.

Voltei a desenvolver projetos de música eletrônica e instrumental, alguns com letras, outros totalmente instrumentais. A diferença é que agora praticamente todas as etapas contam com o apoio da inteligência artificial. As pesquisas começaram em 2024. Em 2026 surgem os primeiros resultados.

Continuo trabalhando sozinho. Sem gravadora. Sem estúdio próprio. Sem banda fixa. Sem uma agência conduzindo lançamentos. Mas agora acompanhado por um pequeno exército de clones digitais.

Enquanto isso, a vida continua acontecendo em paralelo. A empresa segue funcionando, outra graduação ocupa parte da rotina, novos projetos para Brasil, Uruguai e Paraguai começam a sair do papel e os agentes de IA aparecem em praticamente todas as frentes de trabalho.

No fim das contas, talvez a maior mudança não seja tecnológica.

A curiosidade continua a mesma. A vontade de aprender também. Apenas encontrei uma forma diferente de ocupar vários lugares ao mesmo tempo.

Talvez seja o início de uma pequena rebelião criativa. Ou talvez apenas mais uma etapa dessa longa revolução silenciosa que estamos vivendo.

Se você acompanha meu trabalho, prepare-se. Nos próximos meses esses "clones" começarão a aparecer em músicas, vídeos, textos e novos projetos.

Acompanhe pelo site, pelo YouTube, pelo Instagram e pelo Spotify.

E não se preocupe.

As únicas ovelhas dessa história continuam sendo as de verdade.

Bem vindos a "guerra dos clones"...

                                                       Rinaldo Conti

segunda-feira, 29 de junho de 2026

UM SITE NOVO, E O BLOG VELHO DE GUERRA

 
 



 Em resposta a quém tem perguntado: 

 E o site, e o blog, e as músicas?

Em outubro completa quatro anos desde que comecei a escrever por aqui. Este blog foi a origem de tudo o que hoje se traduz na minha produção artística.

Ao longo desse tempo publiquei relatos de viagem, crônicas do cotidiano, reflexões e outros registros. 

Na tentativa de dar mais ritmo a esse trabalho, registrei um domínio e esbocei projetos para um site. Mais de uma vez investi tempo e algum dinheiro para ter um espaço onde pudesse publicar meus conteúdos, oferecendo aos "poucos, porém fiéis" amigos e leitores um lugar onde tudo estivesse reunido de forma clara e organizada.

 Contratei freelancers para botar o bendito site no ar, mas essa tarefa se mostrou mais difícil do que produzir o próprio conteúdo.

 Não sei como é em outros países, mas no Brasil minha experiência quase sempre foi a mesma: Alguém aponta defeitos no que já funciona, apresenta propostas que até fazem sentido, mas, no fim, nada acontece. Perdi tempo e dinheiro em reuniões que nunca entregaram algo melhor ou mais funcional do que o bom e velho blog.

 Produzir arte de forma independente tem dessas coisas. O tempo dedicado à criação é o mesmo que poderia ser investido em algo financeiramente mais rentável. Hoje costumo pensar que a arte é um buraco negro onde despejamos tempo, energia e dinheiro. E curiosamente, por alguma razão que a psicanálise talvez explique melhor do que eu, existe certo prazer ou necessidade nesse processo.

 Fato é que o velho blog continua firme. Sem monetização, sem patrocínio e sem grandes pretensões, sempre pronto para registrar momentos de inspiração, reflexões e algumas conclusões sobre essa história intrigante e fascinante que chamamos de vida.

 Quando olho as estatísticas, encontro um novo ânimo. Continuo escrevendo apenas por prazer e sem grandes expectativas, mas os acessos continuam "poucos, porém fiéis..." E isso me faz acreditar que, de alguma forma, a mensagem continua chegando a quem precisa chegar, e escrever continua valendo a pena.

 Hoje aproveito para compartilhar a nova versão do site, agora no domínio oficial www.rinaldoconti.com. Mas desta vez resolvi colocá-lo no ar por conta própria e, parece que está funcionando.

Como homenagem ao velho blog de guerra, o site tem suas novidades, mas também traz o leitor exatamente para cá: O lugar onde tudo começou, e onde tudo continua.

Sigo trabalhando sozinho, guiado pela filosofia de que o feito vale mais do que o perfeito, e  bem melhor sozinho do que mal acompanhado. 

 Então, aos poucos, porém fiéis e sempre qualificados leitores.

Obrigado pela companhia.

Até o próximo capítulo.

Rinaldo Conti

sexta-feira, 12 de junho de 2026

NH3 - 11 06 26


     NH₃

 Eu deveria decorar seus átomos e moléculas, sua composição e decomposição. 

 Adoraria decorar minha parede com um retrato seu; mas a verdade é que eu te odeio, como odeio ser obrigado a qualquer coisa, sobretudo a decorar, e então o que fica de ti não é lembrança, é impregnação.

 

 Hoje, o que eu sei de ti é tão útil quanto aquilo que eu já sabia antes. Eu te odeio e você fede, amônia...


                                                                            -  -  -  *  -  -  - 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

O SILÊNCIO E A ARTE DE FALAR SOZINHO - 10 06 2026

    

O Silêncio e a Arte de Falar Sozinho

Andando pela rua, num dia pouco ruidoso, estava pensando sobre artes quando percebi duas pessoas discutindo. Falavam tão alto que não tinha como não ouvi-las. Andaram alguns metros à minha frente e iam na mesma direção, mas, a cada pouco, um deles parava de andar e continuava falando. Enquanto falavam e se atrasavam, e enquanto eu os ultrapassava, me peguei pensando em quantas vezes perdi tempo e energia na minha vida discutindo, ou mesmo tentando apenas conversar com pessoas com as quais eu não tinha mesmo assunto, ou que simplesmente não queriam me ouvir...

Obviamente, a gente sabe que está falando sozinho quando ouvimos somente a nossa própria voz. Mas também é possível, e eu não sei o que é pior, perceber que estamos falando sozinhos quando bate aquela sensação de desperdício de tempo, de energia e de ânimo, e acabamos completando frases pela mera obrigação de sermos, minimamente, educados.

Falar sozinho não é agradável, é difícil de aceitar, é chato de perceber, mas dá para saber.

E insistir é pior, porque:

"Ninguém é obrigado a ouvir o que você tem pra dizer."

Falar sozinho é como ver palavras e sentimentos serem lançados num precipício, onde a energia também despenca e se perde.

Falar com outra pessoa e ter a sensação de falar sozinho é como jogar fora um tempo que podia até ser desperdiçado com alguma coisa mais útil, ao menos prazerosa, sem se sentir mal.

Quem não estiver a fim não vai ouvir, não vai entender, e não vai querer saber. E tem todo o direito.

Cabe a quem fala entender com quem deveria gastar a sua saliva e o seu vocabulário, investir ou desperdiçar seu tempo e energia.

Quem não quiser ouvir, vai apenas esperar, se é que vai esperar, para falar.

Não vai entender nem o texto, nem o contexto e muito menos os argumentos.

E continuará tendo todo o direito de fazê-lo...

Quem percebe que está perdendo seu tempo também pode simplesmente parar de falar, sem a necessidade de se explicar, e tem todo o direito de fazê-lo. Reciprocidade e bom senso tendem a andar próximos, se não juntos.

Conversar, discutir, debater e argumentar são habilidades que podem ser aprimoradas e aprendidas, e deveriam ser exercidas. Hoje em dia tenho ouvido falar muito em escuta ativa, inclusive. Falar é da natureza humana, assim como a necessidade de socializar.

Nesta altura do raciocínio, eu já estava tão à frente que não ouvia mais as pessoas que discutiam, mas ainda ouvia os meus pensamentos me lembrando de todas as vezes em que perdi tempo na minha vida tentando falar com quem não queria ouvir.

Também lembrei de muitas coisas que ouvi, sem o menor interesse, apenas por educação, só pra me dar conta do quanto é doce o silêncio, muitas vezes.

Vou chegando, então, à silenciosa conclusão de que:

É tão importante saber a hora de calar quanto é importante saber a hora de parar de ouvir.

Sem se sentir mal, mas sem se importar demais também.

Consciente apenas de que existe uma arte que precisa ser aprimorada.

A arte de falar sozinho.

Silenciosamente,

                                                    Rinaldo Conti:.