Odeio drama, mas eu faço…
Chove lá fora. Atirado na cama, eu medito.
Na boca, um buraco — no osso, titânio.
No peito, silêncio. No tempo, espera.
A carne da gengiva costurada coça;
o peito, remendado com aço, é frio.
Nas caminhadas do dia, entre os compromissos —
o dentista, a farmácia e o mercadinho da esquina —
aquela sensação de piloto automático,
fazendo o que tem que ser feito,
quase sem saber se existe propósito nessas coisas.
Me pego pensando:
O titânio é biocompatível, adere ao osso.
Já entre as pessoas, parece haver uma certa incompatibilidade.
Talvez porque não exista uma tabela periódica para o que a gente sente.
Metade da vida é um trabalho praticamente invisível —
como um dente que é importante, mas não aparece quando a gente sorri.
A outra metade é o resultado desse trabalho:
coisas que, às vezes, ninguém prestaria atenção.
Comprei suco. Comprei sorvete. Comprei remédios.
Mas o que eu precisava mesmo
não tem na farmácia e nem no mercado.
Ah, se eu ao menos soubesse o que é…
Talvez sejam buracos na alma que nenhum metal preencheria.
Ou é só o efeito de um buraco no osso
e um pedaço de titânio.
Ou é só drama.
Odeio drama.
Mas eu faço...

Um comentário:
Muito bem escrito!!!
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