quinta-feira, 15 de junho de 2023

O BILHETE E A MÁQUINA DO TEMPO

 



  " Do que vivemos e de onde estivemos, talvez somente a memória, ou alguma história conserve os eventos. Eis a máquina do tempo..."

 Andava pelos corredores de Buckingham em um dia de festa, sem saber bem o que fazia ali, mas estava tão animado quanto todo mundo. 

 Quem escreve tem essas coisas de sentir a energia no ar, e embarcar no campo magnético do ambiente, na catarse coletiva, só pra sair catando palavras e tentando traduzir as sensações. 

 O palácio, a corte, o séquito e os súditos, os convidados mais e os menos abastados se cruzando pelos corredores e salões, aquilo tudo era como um sonho narrado em contos antigos. Nos palácios do Reino Unido, pra quem não é da corte a sensação de sonho é algo tão vívido que deixa  um sentimento urgente, causando no visitante a avidez por criar algum registro. Nos tempos de hoje seria uma selfie ou qualquer fotografia, em outros tempos, uma cronica, um conto ou uma poesia, uma carta que seria remetida ao futûro narrando a experiência vivida.

 Escrever sem a pretensão de agradar, sem a obrigação de convencer, sem a intenção de vender, é o que permite ao escritor acessar recursos tão fantásticos quanto imperceptíveis, é como criar portais no tempo para onde o escritor pode voltar, ou até mesmo conduzir o leitor que nunca esteve por lá. 

 Era essa a sensação, a avidez pelo registro eternizante, no ambiente excitante, quando faltavam poucos minutos para a troca da guarda, horas antes do baile, pouco antes do jantar. Escrever, registrar o momento e marcar no tempo o ponto certo pra poder voltar, tanto para os que nunca pisaram nos jardins do palácio, quanto para os que estiveram naquele dia caminhando entre as amoreiras de Sodoma, caso um dia a memória lhes viesse a falhar.


 E como se fosse de casa, da própria corte, sentado numa das poltronas aveludadas ao lado de uma  escrivaninha, sabia que na primeira gaveta da velha mobília haveria uma caneta e algum pedaço de papel. O relato daquele sonho, o resumo de como voltar naquele tempo se daria em um simples bilhete com o local, a data, e o motivo do evento. Seria o suficiente para qualquer um poder voltar no tempo quantas vezes fosse necessário e a partir dali seguir revivendo os fatos, criando contos e relatos.

 Em segundos estava feito, bastava ajeitar o traje e voltar ao evento, levando no bolso o bilhete de embarque da máquina do tempo...



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