Conexão
Conexões se estabelecem, se mantêm e se perdem.
Há muito tempo, em um voo do Uruguai para o Brasil, escrevi uma canção chamada Conexão. Um dia conto mais sobre ela por aqui. Mas a minha reflexão de hoje é sobre os tipos de conexões que criamos, mantemos e perdemos ao longo da vida.
Tenho percebido o mundo cada vez mais ansioso e me vejo assim também. Parece que tudo é sempre "agora ou nunca", como se o próximo segundo fosse a última chance para qualquer coisa.
Quando concluí a faculdade de Publicidade, fiquei ainda mais desconfiado do que já era. Desconfiado com cada frase, cada atitude, cada placa na esquina. Eu enxergava em tudo ( e ainda vejo )um argumento de venda tentando me convencer de alguma ideia, da vantagem de fazer alguma coisa, comprar alguma coisa, ou seguir determinado caminho.
E tudo bem. A humanidade sempre funcionou mais ou menos assim. Comprar e vender nos trouxe coisas fantásticas: o poder de escolher entre produtos e serviços, a oportunidade de oferecer aquilo que sabemos fazer e, com isso, construir uma sociedade relativamente organizada. O problema nunca foi o comércio. O excesso de informação, somado às infinitas intenções por trás dela, é que se tornou um enorme desafio para manter conexões saudáveis. A vida imita a arte, e as vezes parece que tudo vira uma cena e todo mundo um personagem.
E faz tempo que essa lógica parece ter saído do controle, num lance de: " personagens demais, e pessoas de menos ".
Às vezes tenho até a impressão de que já não existe amizade, relacionamento ou qualquer tipo de conexão sem alguma proposta comercial embutida, escondida nas entrelinhas. Seja por conveniência, status, validação ou qualquer outro indicador mensurável. É como ser medido pela capacidade de entregar e solucionar, e acabar se sentindo obsoleto quando já ofereceu tudo o que tinha.
E, de novo, tá tudo bem.O mundo seguirá sendo como deve ser.
Mas para quem já enxergou esse mecanismo funcionando, fica difícil "desver". E isso cansa... Esse ciclo de ser útil o tempo inteiro.
Isso me faz lembrar de quando deitava na grama pra olhar as estrelas com algum amigo, e sem intenção ou interesse em nada, aquele momento era simplesmente incrível sobretudo quando passava uma estrela cadente, totalmente inútil para qualquer outra coisa que não fosse viver o presente.
Entre inúmeras teorias que desenvolvi ao longo dos anos, e que talvez eu organize em algum livro um dia, existe uma que gosto especialmente. Ela fala sobre interesses legítimos. A ideia é simples: todo relacionamento acontece por interesse. Ponto final.
Um homem e uma mulher podem ter interesse na companhia, no afeto ou na construção de uma vida juntos. Uma planta tem interesse no solo onde germina. Um animal aceita ser domesticado porque existe algum tipo de benefício nessa relação.
O interesse, por si só, não é o problema. A questão é descobrir se ele é legítimo.
No primeiro exemplo, se um casal se conecta pelo afeto, e esse interesse é verdadeiro, existem grandes chances de viverem uma relação feliz , quem sabe por toda a vida.
Mas quando o afeto é apenas um argumento para esconder outros interesses, segurança emocional, financeira, espiritual ou qualquer outro tipo de conveniência, a conexão nasce frágil. É como uma semente tentando germinar sobre uma pedra. Claro, talvez exista uma pedra interessada em sustentar uma semente, e uma semente interessada em crescer justamente ali. Nesse caso improvável, quem sabe elas sejam felizes para sempre.
Mas, na maioria das vezes, interesses diferentes não sustentam conexões por muito tempo. E assim seguimos, na busca por conexões legítimas. Primeiro, consigo mesmo, depois, com quem cruza o nosso caminho.
Conexões mais leves. Mais honestas. Mais livres da necessidade de parecer alguma coisa. Mesmo que durem pouco.
Porque talvez a beleza das conexões nunca tenha estado no tempo que permanecem, mas na verdade com que acontecem enquanto existem.

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