O Silêncio e a Arte de Falar Sozinho
Andando pela rua, num dia pouco ruidoso, estava pensando sobre artes quando percebi duas pessoas discutindo. Falavam tão alto que não tinha como não ouvi-las. Andaram alguns metros à minha frente e iam na mesma direção, mas, a cada pouco, um deles parava de andar e continuava falando. Enquanto falavam e se atrasavam, e enquanto eu os ultrapassava, me peguei pensando em quantas vezes perdi tempo e energia na minha vida discutindo, ou mesmo tentando apenas conversar com pessoas com as quais eu não tinha mesmo assunto, ou que simplesmente não queriam me ouvir...
Obviamente, a gente sabe que está falando sozinho quando ouvimos somente a nossa própria voz. Mas também é possível, e eu não sei o que é pior, perceber que estamos falando sozinhos quando bate aquela sensação de desperdício de tempo, de energia e de ânimo, e acabamos completando frases pela mera obrigação de sermos, minimamente, educados.
Falar sozinho não é agradável, é difícil de aceitar, é chato de perceber, mas dá para saber.
E insistir é pior, porque:
"Ninguém é obrigado a ouvir o que você tem pra dizer."
Falar sozinho é como ver palavras e sentimentos serem lançados num precipício, onde a energia também despenca e se perde.
Falar com outra pessoa e ter a sensação de falar sozinho é como jogar fora um tempo que podia até ser desperdiçado com alguma coisa mais útil, ao menos prazerosa, sem se sentir mal.
Quem não estiver a fim não vai ouvir, não vai entender, e não vai querer saber. E tem todo o direito.
Cabe a quem fala entender com quem deveria gastar a sua saliva e o seu vocabulário, investir ou desperdiçar seu tempo e energia.
Quem não quiser ouvir, vai apenas esperar, se é que vai esperar, para falar.
Não vai entender nem o texto, nem o contexto e muito menos os argumentos.
E continuará tendo todo o direito de fazê-lo...
Quem percebe que está perdendo seu tempo também pode simplesmente parar de falar, sem a necessidade de se explicar, e tem todo o direito de fazê-lo. Reciprocidade e bom senso tendem a andar próximos, se não juntos.
Conversar, discutir, debater e argumentar são habilidades que podem ser aprimoradas e aprendidas, e deveriam ser exercidas. Hoje em dia tenho ouvido falar muito em escuta ativa, inclusive. Falar é da natureza humana, assim como a necessidade de socializar.
Nesta altura do raciocínio, eu já estava tão à frente que não ouvia mais as pessoas que discutiam, mas ainda ouvia os meus pensamentos me lembrando de todas as vezes em que perdi tempo na minha vida tentando falar com quem não queria ouvir.
Também lembrei de muitas coisas que ouvi, sem o menor interesse, apenas por educação, só pra me dar conta do quanto é doce o silêncio, muitas vezes.
Vou chegando, então, à silenciosa conclusão de que:
É tão importante saber a hora de calar quanto é importante saber a hora de parar de ouvir.
Sem se sentir mal, mas sem se importar demais também.
Consciente apenas de que existe uma arte que precisa ser aprimorada.
A arte de falar sozinho.
Silenciosamente,
Rinaldo Conti:.

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