Sempre gostei do inverno, dos horizontes, do pôr do sol e de andar assobiando.
Quando criança, fazia trilhas perto de casa e me encantava com as linhas de energia desaparecendo no horizonte. Sabia que, além delas, havia outras cidades e imaginava que um dia chegaria até lá, e depois ainda mais longe.
Hoje é 30 de julho. Em pleno inverno, faz 30 °C no centro de Asunción. O pôr do sol explode atrás dos prédios e das nuvens, na direção do Chaco. O Facebook me lembra que, há 14 anos, eu estava à beira de um lago gelado na Patagônia chilena, diante das Torres del Paine. Horizontes infinitos, sem torres de concreto, sem linhas de energia, apenas montanhas, vento e silêncio.
Naquele tempo, tudo o que eu escrevia ficava no papel. O médio prazo era o fim do ano; o longo prazo tinha outro significado. Aventuras não eram um intervalo da vida. Eram a própria vida.
Agora observo as torres de concreto que crescem no centro de Asunción. Meus objetivos parecem tão distantes quanto o próprio Chaco. Penso também nas torres e nas linhas de transmissão que partem de Itaipu e cruzam o Paraguay, levando energia por caminhos que quase nunca vemos.
Tenho driblado a ansiedade entre contratos e aeroportos criando músicas instrumentais e eletrônicas para dar cor às ruas. Disso nasceu o projeto SCAPE, mais uma válvula de escape. Ainda assim, sinto falta das montanhas, dos desertos e dos campos vazios do sul. Às vezes parece que a paz dos lugares remotos cobra seu preço em distância, enquanto a vida nas metrópoles cobra em burocracia.
O coração pergunta: "Por que bater longe do que faz sentido?" Não tenho resposta. Faço música como quem se desculpa. Escrevo como quem confessa.
Olho para as torres de concreto e lembro das de granito. As lembranças de um passado feliz também me mostram que muitas das coisas boas que existem hoje não estavam nos planos daquele homem de 14 anos atrás.
Talvez seja assim que a vida funcione. A gente segue imaginando o horizonte seguinte sem perceber que, no caminho, encontra paisagens com as quais sequer sonhamos.
E, para quem aprendeu a gostar até do calor no inverno, talvez reste continuar assobiando rumo ao pôr do sol, esperando pelas próximas surpresas. No fim de um dia quente, ao final de uma semana em que tudo acabou se resolvendo, é hora de seguir para mais um horizonte.
Só não sei em que direção.


